20 novembro 2003

e da tua boca escorriam gotas de orvalho,
brincos da noite negra, suspiros de nada.
o teu corpo inerte. as folhas esmagadas pelo peso
de uma melancolia total,
pois a alma tem segredos em raízes finas e fundas,
que nos prendem e amordaçam ao céu do outro lado.

já esqueci sem dúvida todas as pétalas fotografadas,
e as suas cores são hoje ténues e difusas nos olhos de leite.
tu calado. tu sem palavra nem som...a voz muda pelo tempo,
os olhos cegos, e a boca com gotas de orvalho.

já não sabes os segredos da noite,
porque o mundo para ti é uma caixa de música partida,
onde a dançarina que rodopiava e te encantava a vida
vive hoje fechada na sua caixa de braços partidos.
e tudo te entristece numa tristeza sublime,
como se todas as cidades tivessem morrido,
como se tudo fosse deserto, e as pessoas cactos sem água
para te saciar a sede.

e na tua boca gotas de orvalho,
como pérolas negras, como gotas de neve derretida.
pois tudo se desvanece, pois nada é.
e as filosofias morreram todas, e os sábios mataste-os todos,
um a um, um sobre o outro, para que sentissem a morte total
da palavra. e os poetas foram todos presos na tua cabeça,
pois a emoção em ti é uma ostra sangrenta.

Nas tuas veias corre sangue de cor incerta…
talvez petróleo, talvez a riqueza do mundo…
o teu coração é um diamante de mirra.
O teu mundo é único e total,
pois as constelações foram devoradas pelo buraco negro que te tornaste.
Só tu és, porque só tu existes…
tudo o resto apodrece abandonado.
E na tua boca gotas de orvalho.