17 janeiro 2005

e foi assim que aconteceu...a tua chegada, a minha presença...a tua partida...a nossa ausência...tudo num instante...numas breves férias que muitas vezes desejámos não estarem a acontecer, de forma a continuar a desejar que o tempo não passe, ou que pelo menos viesse devagar...como aquelas cenas em câmara lenta em que tentamos absorver os pormenores de cada momento.

sei que nos custa aos dois esta ausência...como se ela nos experimentasse...como se nos obrigasse a um estágio de silêncio...a um quase nada da tua permanência física, e também da tua palavra...daquelas que ás vezes nos abraçam com mais força que os braços...

e sei que andas por ai...e sei que sabes que por aqui ando...mas não sabemos das dores de cada um...este tempo de ausência tem deixado marcas no corpo e na alma...tempos díficeis...tempos de luta..em que lutamos lutas tão distantes...como se estas mesmas lutas nos levassem para países ainda mais longínquos do que estes que hoje nos separam...
depois tentamos resumir tudo em breves palavras....como se a vida se resumisse...por isso deixei de te falar, tanto quanto possível, do que me pesa hoje a esta distância...sei que existem pesos que só a mim me pertencem, e aos quais hoje não me podes ajudar a transportar...

sei também que as nossas vidas tão diferentes nos podem levar para caminhos tão diferentes..mas não sei porquê isso não me assusta...sei que no limite tu existes e eu existo nesta dimensão de vida...

e passaram-se quinze dias em breves instantes...
as férias mais cansativas que ambos tivemos, provavelmente...sem tempo para quase nada...quase sem tempo para estarmos...

mas no final conseguimos estar...com a esperança e com a vontade de andar lado a lado pela cidade que nos toca aos dois...como se ela nos contasse as suas muitas histórias antes de um adeus.

e senti-me bem em estar...foi um momento de paz em que conseguimos estar a falar de tudo e de nada...
e é disso que mais sinto falta...de falar de tudo e de nada...de projectos, da vida, de nada, dos outros e de nós.

por agora limito-me a esperar a primavera..que ela te traga inteiro do que és....pronto para novas aventuras e para a vida.

p.s.- o barco continua a meter água de quando em quando...ando a tentar construir uns braços de polvo de forma a conseguir remar mais forte para porto seguro...